As baleias que encantam no Sul do País

Notícia em Foco / 06-04-2009 / 07:41

Baleia Franca: mãe e filhote em Laguna-SC

Baleia Franca: mãe e filhote em Laguna-SC

 

Por Arthur Conceição – consultapolitica@yahoo.com.br

A harmonia e a beleza das baleias francas nas águas geladas do extremo sul do litoral catarinense são um verdadeiro espetáculo da vida animal que encanta seus observadores. A elegância dos movimentos desses enormes mamíferos é fascinante quando bailam sobre as águas do Atlântico, com suas caudas e nadadeiras. A emersão do fundo do mar e o salto mostram a vitalidade e a força desses enormes animais. O borrifo de água que sai do seu dorso emite um som inigualável, quebrando o silêncio do mar aberto, podendo ser escutado a centenas de metros. Os sons imitidos pelas baleias francas têm oito faixas de escala, e cada um deles serve para comunicação entre a espécie. Há estudos que mostram que elas também podem reconhecer locais específicos da costa pelo recorte geográfico por meio da acústica. O som emitido por esses mamíferos é uma verdadeira orquestra entre as ondas do mar. Alguns dos sons podem ir de 170 a 187 dB, principalmente quando elas estão na época de reprodução. As baleias são bastante sensitivas quanto ao barulho e percebem tudo o que passa ao seu redor. Qualquer ruído sobre a água elas estão antenadas, e as mães, principalmente, levantam a cabeça para ver o que está acontecendo.
As baleias que se deslocam para o litoral catarinense vêm da ilha da Geórgia do Sul, próximo à Antártica. No deslocamento, chegam a atingir até 12 km/h, levando em média um mês e meio nas suas viagens. Durante o verão, entre os meses de dezembro e maio, as baleias buscam alimentos nessa região, e durante o inverno elas se deslocam para se acasalar e reproduzir entre a Península de Valdez na Argentina e na costa brasileira, sendo seu ponto base o litoral de Santa Catarina. Já foram vistas baleias francas em Abrolhos, na Bahia, mas sua principal ocorrência é no Sul do Brasil. As baleias basicamente alimentam-se basicamente de krill no verão, que é um crustáceo parecido com o camarão. Completa suas refeições com cardumes de sardinha. No tempo de sua reprodução não ingerem nada e ficam o inverno todo em jejum, apenas gastando a massa corpórea que adquiriram no verão. Quando chegam às águas brasileiras, sua espessura de gordura é mais ou menos de 40 cm e ao retornarem ao Oeste da Península Antártica, chegam a 12 cm. Uma baleia adulta pode medir 17 metros, pesando até 60 toneladas, enquanto o macho chega, no máximo, a 45 toneladas, medindo 15 metros de comprimento. O filhote já nasce com mais ou menos 5 metros, pesando de 4 a 5 toneladas, e tanto a gestação como a amamentação duram um ano. Segundo alguns estudos de cientistas franceses, a vida média de uma baleia do porte da franca pode chegar aos 65 anos.
As baleias francas são identificadas por meio de saliências sobre a cabeça como se fossem berrugas, que cientificamente é denominada de ciamídeos. Esses sinais é como se fossem nossas impressões digitais e é por intermédio deles que os cientistas identificam cada individuo. O crescimento das colônias são observadas ano a ano minuciosamente por meio de fotos aéreas e é pelas berrugas que os estudiosos acompanham a imigração delas. É dessa forma que os cientistas fazem o controle da espécie e sua evolução.
A reprodução da baleia é poliândrica, isto é, acontece o cortejamento por diversos machos sobre uma única fêmea levando um acasalamento em grupo. Esse fenômeno é mais visto na faixa litorânea do Rio Grande do Sul, quando elas chegam no começo do inverno do continente Antártico. Mas, depois de se acasalarem, uma grande parte delas se desloca para Santa Catarina. Porém, é mais comum ver no litoral catarinense as mães procriando do que acasalando, e aí é possível observar com muita freqüência a navegação calma e tranqüila das francas na faixa de ondas do litoral catarinense, onde ficam bem próximas da costa. Por este motivo tem se a possibilidade de avistar as mães e os filhotes juntos. Tem filhotes que passam um ano junto da mãe e só se separam quando retornam à área de reprodução. Precisa ser completado o ciclo natural de navegação de 12 meses entre a ida e a volta das águas Antárticas. O mais belo é ver o carinho e o cuidado que a mãe tem com os filhotes. Lado a lado, eles navegam em sincronia. Quando o filhote dá suas piruetas no mar para se exibir para mãe, ela observa tudo o que está ao seu redor. Cada movimento, tanto da mãe que ensina o filho quanto do filho que se exibe, esses movimentos harmônicos desses enormes mamíferos é transformado numa apresentação inigualável para os praianos e turista.
Ecoturismo
Todo esse show pode ser visto com maior ocorrência na cidade de Imbituba, no Estado de Santa Catarina, que tem uma boa estrutura de barcos para levar os visitantes. A temporada de observação das francas no Brasil é de julho a novembro, e compreende os limites da Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, que vai da faixa litorânea da praia do Rincão, município de Içara, até a costa sul da ilha de Florianópolis. Mas, o melhor período é na segunda quinzena de agosto e ao final da primeira quinzena de outubro. Os melhores lugares de observação e entre as praias de Itapirubá, no município de Laguna, Ribanceira e Ibiraquera, estas no município de Imbituba, pois é nas enseadas desses balneários que costuma ter o maior número de baleias que ficam ali por vários dias.

Na região tem várias formas para o turista poder desfrutar o encanto das danças das baleias, como também admirar a paisagem. As baleias podem ser vistas de vários ângulos. A forma mais tranqüila é se posicionar sobre as areias das dunas na praia de Ibiraquera, que pode chegar até 8 metros de altura, podendo admirar elas a uns trezentos metros. Para uma boa observação é preciso levar um binóculo e roupas de frio, pois o vento é gelado. Das dunas se tem uma visão bucólica das praias e da paisagem local. Outra opção é subir os morros dos balneários de Ibiraquera, Rosa e da Silveira, mas o morro de onde se tem uma melhor vista é na praia de Itapirubá, que avança uns trezentos metros mar adentro. De lá, sim, é possível ter um visão ampla das praias sendo possível olhar as baleias mais de perto. O acesso aos morros é fácil, mas antes de subir para encontra lás é preciso ver o mapa de contagem diária que o Projeto Baleia Franca faz para descobrir onde elas estão mais bem posicionadas.

O grande atrativo é o serviço de barcos que levam os turistas a uma proximidade máxima de 50 metros das baleias, conforme determina as regras de visitação pelos órgãos ambientais. Só estão autorizadas pelo Ibama apenas três operadoras que fazem esse tipo de serviço dentro da Unidade de Conservação, e a mais conhecida fica no centro de Imbituba, na Estação do Trem, bem em frente da Igreja Matriz. Esse local é o centro de apoio ao turista, que é gerenciado pela Associação de Guias de Turismo da APA da Baleia Franca (AGTA). As saídas de barcos sempre acontecem pela parte da manhã, com guias que contam a história das baleias e, rapidamente, levam educação ambiental ao turista.

Aqueles que contratarem o serviço deixam o carro na estação de trem e logo em seguida são transportados em microônibus para o cais do porto de Imbituba, e lá numa plataforma e feito o embarque. Tudo é realizado no maior rigor de segurança náutica. O passeio dura aproximadamente umas duas horas e meia e são feitas diversas paradas, onde os turistas tirarem fotos e observarem a elegância dos movimentos de mães e filhotes das baleias francas. Sempre quando os barcos se aproximam delas e estreitamente recomendado não falar e nem andar sobre o convés, como também os motores não podem ficar ligados. Todos os movimentos dos barcos as mães estão de olho e caso ocorra barulho elas fogem. As baleias têm uma característica muito dócil que facilita a aproximação delas com as pessoas pela curiosidade.

Segundo o presidente da AGTA, Julio Cezar Vicente, a grande dificuldade para atender o turista é a falta de investimento governamental, principalmente de recursos federais. “Hoje os que menos vêm visitar as baleias são turistas nacionais. Temos muitos estrangeiros, principalmente alemães e italianos, que não garantem a manutenção por completo de toda estrutura turística disponível, pois é preciso uma maior divulgação desse ecoturismo aqui dentro do Brasil”, expõem.

Para os mais aventureiros tem um programa que é feito por três dias pedalando sobre as areias da APA da Baleia Franca, num total de 125 km. É pura adrenalina por rio, dunas, ribanceira e lagoas. O percurso começa na praia de Itapirubá em frente da sede do Projeto Baleia Franca e chega até a ilha de Florianópolis. Durante as pedaladas é possível avistar as baleias francas e demais animais que compõem o ecossistema da região, que é um verdadeiro deslumbre que mexe com a emoção do aventureiro. Todo o trajeto tem uma equipe com carro de apoio e os pernoites são feitos em lugares como pousadas e casas alugadas. Tudo é organizado pela empresa de turismo Caminhos do Sertão, com sede em Florianópolis, que é especializada em turismo de aventura e pioneiro em cicloturismo no Estado catarinense. O trajeto da APA é feito em meio à natureza e a travessia do continente para a ilha de Florianópolis não se faz pela ponte, e sim de barco entre a praia do Sonho e a Caieira, localizada na Barra do Sul.

Um dos sócios proprietários da empresa, fotógrafo e designer, Eduardo Green Short, levanta a discussão que essa forma de turismo é um dos que menos agredi o meio ambiente e é um dos setores que não tem investimento algum por parte do governo. “Percebemos aumento da procura desse modo de fazer turismo, pois as pessoas querem realmente ter contato com novas pessoas principalmente com as comunidades, isto é, parar no momento em que quiserem para admirar as paisagens, ouvir os sons e sentir os cheiros dos locais”, justifica. Quanto aos investimentos ressalta que“ o poder público costuma só dar valor ao turismo de massa, que movimente grande volume de recursos, fazemos um trabalho de formiguinha, gerando renda para cada um dos restaurantes, pousadas, barqueiros que contratamos no caminho, porém, nos falta uma estrutura de divulgação que nos ajude trazer pequenos grupos com boa freqüência. Assim, todos os envolvidos no processo podem ter um retorno constante. Sinceramente, não queremos que a região tenha um turismo dito ‘predatório’ que pode degradar a qualidade dos locais e conseqüentemente essas mesmas pessoas não voltarão e nosso público alvo se perderá, ocasionando a decadência. Pelo contrário, queremos um turismo que seja envolvente com práticas de atividade sustentáveis. Por isso desenvolver o turismo de aventura na APA da Baleia Franca poderá trazer uma excelente geração de renda as populações, infelizmente não é assim que os governos e governantes compreendem”, finaliza.

Preservação
A última captura da baleia franca em Santa Catarina aconteceu em 1973, e a partir daí a espécie praticamente desapareceu, sendo considerada extinta por muitos pesquisadores dentro dos limites das águas territoriais do País. Aconteceram ao final dos anos de 1970 fatos isolados de aparecimento nas praias gaúchas. Esses registros foram considerados pela comunidade cientifica como acontecimentos sem relevância quanto à certificação do retorno das colônias.

Durante o ano de 1981, um grupo de estudiosos liderados pelo Almirante Ibsen Câmara passou a investigar os temas depois de ter sido registrado vários relatos de pescadores ao descreveram o aparecimento das enormes “Baleias Pretas”, que rondavam o alto mar do litoral Sul do Brasil. Com investigações mais aprofundadas do almirante, em agosto de 1982 foi avistada uma fêmea adulta e seu filhote na praia de Ubatuba, Ilha de São Francisco do Sul, SC. Incentivados pela empolgação do almirante, em 1982, surge um grupo de estudiosos voluntário que cria o Projeto Baleia Franca, tendo seu principal objetivo estudar e monitorar as comunidades de baleias para alertar as autoridades competentes em relação à proteção desses dóceis mamíferos. Anos de paixão e dedicação pela proteção e estudos dos animais, os membros do projeto conseguiram formar um banco cientifico de dados sobre as baleias francas. Todos os recursos para as investigações partiram do bolso dos próprios pesquisadores. Os trabalhos surpreenderam tanto que tiveram reconhecimento de várias universidades do Brasil e do exterior.

No começo dos anos de 1990, pela necessidade transformaram o projeto numa associação e conseguiram junto das autoridades em 1995 o reconhecimento do Estado de Santa, que declarou, por meio de um decreto-lei, as baleias como Monumento Natural estadual, e com isso a proteção delas passou a gozar de atenção especial. O projeto passou, então, ter apoio de vários movimentos ambientalista e, em 2000, por intermédio de um acordo com a União, foi criada por decreto federal a APA da Baleia Franca, que hoje abrange 156.100 hectares da costa centro-sul catarinense. Algumas áreas da APA são restritas para visitação por água, conforme determina a Instrução Normativa do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) 102/06, que garante a proteção das baleias contra perturbações indevidas. Essa medida alcança o objetivo de assegurar que as fêmeas e filhotes de baleia franca tenham áreas-refúgio e concomitantemente é protegido o berço de sua reprodução. Hoje, existe um movimento internacional que vem da Argentina em parceria com os pesquisadores brasileiros para criar um santuário mundial que assegure proteção permanente a esses mamíferos nas suas áreas de alimentação entre a ilha da Geórgia do Sul e a costa Argentina, no sentido de garantir a preservação da espécie sem elas serem atingidas pelos navios de pesca japoneses.

O Projeto Baleia Franca, priorizou, ao longo do tempo, a identificação aérea fotográfica individual dos animais em águas brasileiras. Em 2002, a associação conseguiu o patrocínio da PETROBRAS, que é nos dias atuais a patrocinadora oficial das atividades, repassando à ONG R$ 400 mil anuais. O recurso melhorou o desempenho profissional dos seus envolvidos e consolidou a atuação como um dos mais importantes projetos de conservação marinha do Brasil. Esta ONG brasileira tem atividades cooperadas com instituições de pesquisa e ensino superior da Argentina, Uruguai e Chile, quanto à formulação de programas e políticas integradas para as baleias francas na Região do Cone Sul.

No ano de 2003 o projeto realizou a construção do Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca, que foi inaugurado em 20 de setembro daquele ano. Este espaço é destinado à informação do público em geral e nele são desenvolvidos trabalhos de educação ambiental sobre o ecossistema das baleias. O Centro está localizado na praia de Itapirubá, no município de Laguna, numa casa de frente para o mar de 400 m2 dentro de um terreno com espaço de 1200 m2, que foi doado pela comunidade local, é usado para centralizar as atividades de pesquisa. Na estrutura física da sede tem uma área reservada para acolher pesquisadores visitantes com deck de observação, laboratório e alojamento. Em paralelo aos espaços de atividades foi construído o Museu da Baleia de Imbituba, o único deste gênero na América do Sul, que teve apoio da prefeitura de Laguna. Todo esforço dos trabalhos foi recompensado quando, em 2006, comemorou a marca de 194 baleias avistadas, sendo este um recorde de 24 anos de observação registrada no litoral Sul do País, que faz reforçar a preservação da espécie e a luta dos membros da ONG.

Segundo a coordenadora do projeto, a bióloga Karina Rejane Groch, doutora em biologia animal e responsável pela delegação científica quanto à representação brasileira na Comissão Internacional da Baleia – CIB, o mais difícil hoje e conciliar turismo e preservação. “Estamos tentando mostrar às autoridades brasileiras que é preciso casar os objetivo do turismo com a defesa das baleias e dos recursos naturais da APA. Precisaríamos de mais investimento no turismo no que diz respeito à capacitação da comunidade local e o mesmo serve para a educação ambiental. Essas duas atividades precisam andar lado a lado para um bom desenvolvimento sustentável”, destaca.

O Projeto Baleia Franca, hoje, tem apoio direto administrativo da Coalizão Internacional da Vida Silvestre – IWC/BRASIL, que desenvolve com a ONG uma intensa campanha no sentido de mobilizar os governantes e os empresários do setor turístico para o enorme potencial quanto ao ecoturismo sobre tema baleia no Brasil. O turismo de observação de baleias pode beneficiar a economia das comunidades litorâneas da Região Sul, como também os atrativos que a natureza dispõem.

Serviços:
Barco
Associação de Guias de Turismo da APA da Baleia Franca/ Fone: (48) 9977-6352 / Atendimento 24h

Bicicleta
(48) 8412 8854 ou 3234-0154
www.caminhosdosertao.com.br

Museu Projeto Baleia Franca
(48) – 3255-2922
www.baleiafranca.org.br

Guia de pousada e hotéis em Imbituba
www.belasantacatarina.com.br/imbituba

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