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2010Movimentos sociais estão em crise no Brasil, segundo MST
Notícia em Foco / 24-05-2010 / 07:39
Francisco Beltrão-PR – Por Pedro Carrano
João Pedro Stédile analisa que a esquerda e os movimentos sociais estão em um período de resistência. Para o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), os tempos de recuo das lutas sociais, depois da derrota do projeto da esquerda, em 1989, começam a ficar para trás. Mas ele ressalta que as organizações não retomaram a ofensiva e ainda não conseguem impor à sociedade seu próprio projeto: “Paramos de descer, mas ainda não começamos a ofensiva contra o Capital”, expôs no terceiro dia da nona Jornada de Agroecologia, realizada em Francisco Beltrão, sudoeste do Paraná.
O atual período, no Brasil e na América Latina, é caracterizado pelo dirigente sem-terra como de derrotas e crise do projeto neoliberal. Iniciado na Venezuela, este processo estimulou lutas no continente. Atualmente, o Estado carece de um projeto que dê conta de solucionar as carências das populações trabalhadoras rurais principalmente.
Noutros períodos históricos, foi diferente. Após o final da Segunda Guerra, na curva histórica entre os anos de 1945 e 1973, houve uma garantia de pleno emprego e concessões. “A burguesia não resolveu os problemas fundamentais do povo brasileiro. Estão latentes. Entre 1945 e 1973, a classe aumentou muito o salário. Todos tinham casa e escola. Não é o que acontece hoje no Brasil e no mundo”, expões Stédile .
Para exemplificar a atual situação, Stédile cita dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Se, na década de 1960, sessenta milhões passavam fome, hoje este número se elevou para um bilhão de pessoas – o que reforça as condições objetivas para um aumento das reivindicações e revolta.
Táticas combinadas
A classe empresarial busca controlar o Estado brasileiro, a principal fonte de acúmulo de riquezas, a partir da chamada mais-valia-social, que o Estado concentra anonimamente, por meio de impostos, explica Stédile. O dirigente critica a concepção das organizações que apostam todas as fichas no processo eleitoral e institucional. Criticou também as correntes “idealistas”, que colocam o problema do socialismo como um ato de vontade, num horizonte próximo. “Não conseguimos forças nem para tirar o presidente do Banco Central”, ironiza. Segundo ele, o acúmulo dos movimentos em torno da Via Campesina aponta para as duas táticas combinadas, entre as lutas social e institucional.
Sobre o momento das eleições, Stédile analisa que a candidatura Serra agrega latifundiários e o agronegócio, e uma classe média mais conservadora de São Paulo, setores industriais e financeiros. No mesmo sentido, a candidatura de Dilma Roussef agrega setores de grande conglomerados financeiros e industrial. “ A candidatura de Dilma não é um projeto da classe trabalhadora, mas têm dentro de si representada alguns interesses da classe trabalhadora”, coloca. “Voto depende de uma posição de classe. É necessário derrotar a candidatura Serra, para impedir que a candidatura dele coloque o seu projeto no Brasil. Temos que ganhar fôlego para seguir avançar nas lutas sociais”, explica.
Ações sociais no campo
Na agricultura, dois projetos estão visivelmente em disputa. “Na agricultura, nunca na História do Brasil houve o enfrentamento tão claro camponeses”, provoca Stédile, contextualizando que, em outros períodos do Brasil, por vezes os projetos se confundiam, devido ao interesse das politicas mais eletista dos representantes das industrias, em relação a reforma agrária. “No modelo do agronegócio não há espaço para o camponês. Não precisamos existir para o agronegócio ganhar seu dinheiro”, comenta.
“O tema dos agrotóxicos deixa o modelo do agronegócio e transnacionais de calças curtas. O aumento do consumo é diretamente proporcional ao adoecimento da população. Stédile cita dados dos EUA, país onde 50% da população desenvolve câncer devido aos alimentos contaminados. Para os camponeses, neste sentido, lutas locais são necessárias, para garantir, por exemplo, que 30% das merendas sejam compostas pela agricultura familiar.” afirna Stédile.
O intercâmbio entre os saberes populares é uma forma de elevar o nível de consciência do povo. Acúmulo de forças e tática de resistência são as palavras para o período: “Este é um período de plantar árvores, ao contrário da alface e do feijão, a árvore não pára de produzir frutos e não morre cedo. Temos que plantar para o futuro”, afirmou representnate do MST.